segunda-feira, 14 de abril de 2014


 
APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA
A GIA E O FORMOL
Gilberto Bento de Andrade

Durante minha infância, em um belo dia de aula, o professor pediu-nos que capturássemos uma gia. Aquela missão deixou-me um tanto perplexo pois nunca nenhum professor em escola nenhuma havia solicitado tal tarefa. Seria o nosso novo mestre um energúmeno? Mesmo contrariados com tal atrocidade, saímos à cata da gia. Ao chegarmos ao rio Ceará, bastante conhecido por sua especialidade em esquistossomose, caímos às suas margens a procura da presa maior possível. De uma coisa estava eu certo: poderíamos até não encontrar anfíbio algum, mais com certeza encontraríamos uma barriga d'água.
As margens do rio era arenosa e aparentemente ali não existia nenhuma gia, nem grande nem pequena. Caminhamos em duplas nessa caçada épica, rio acima rio abaixo, durante algumas horas até que finalmente uma dupla acenou haver encontrado uma das grandes. O grupo reuniu-se novamente. Foi então que começou o dilema; uns diziam que não era uma gia e sim um cassote, outros diziam que não era nem gia nem cassote e sim um sapo. Chegaram até a afirmar que era uma perereca. Por sorte, um senhor que pescava às margens interveio e falou com exatidão de um mestre: - É uma perereca! - Voltamos a estaca zero.
Depois de muitas horas de molecagem, correndo atrás das meninas com a perereca na mão, capturou-se a famigerada gia que se debatia freneticamente mexendo pernas e braços como se estivesse nadando, agarrada pelo pescoço. Era uma bela gia, úmida e macia, de pele escura em tom verde musgo. Tinha o ventre pálido, frio e escorregadio. As pernas levemente desnutridas e alongadas, quase sempre dobradas, causava ternas lembranças. Colocamos a anfíbia num saco d'água, apesar de alguns moleques mais malignos sugerirem um pau-de-arara, e levamos a mesma à casa do professor. Esse não falou nada, limitou-se a agradecer e a desejar um bom dia. Fiquei quase em paz a não ser pela dúvida que teimava em me acompanhar: para que o professor queria uma gia e ainda mais, das grande? Será que era para a merenda escolar? No dia seguinte eu saberia ao ir para a escola. Temeroso com o destino da gia, dormi quase sossegado.
Finalmente o astro rei reapareceu. Ao chegar na escola, que era apenas uma sala de aula, alguns curumins aguardavam ansiosos e aflitos para ver como se comportava a anfíbia fora do seu habitat e se perguntavam: - Será que ela morreu? Ao adentrar e desejar um bom dia bem maquiavélico, o professor abriu uma caixa paralelepipédica metálica e... lá estava nossa quase-gia de braços e pernas abertas para o ar, mergulhada em um líquido malcheiroso mesmo. O professor retirou-a desse líquido e estendeu-a na horizontal em cima de uma tábua dessas de cortar carne... meteu-lhe vários alfinetes por todo o corpo mantendo-a cingida, singelamente à tábua, de barriga para cima... sacou de um bisturi e foi metendo-lhe o ferro no sentido vertical de cima para baixo e, explicando para toda a classe, que indagara, que aquele líquido em que a nobre gia se encontrava era um tal de formol, e que a anfíbia fora solicitada para estudo do aparelho digestivo por ela ter o mesmo muito parecido com o dos seres quase-humanos. Nisso o professor energúmeno tinha toda razão.